Carandiru

Há realidades que a sociedade sempre quis fugir, esconder, ocultar, a realidade das prisões parece ser uma delas. No dia 2 de Outubro de 1992, ocorreu um motim na prisão do estado de São Paulo, mais conhecida por Carandiru. Desse motim resultou a morte de 111 presos (ou talvez mais segundo alguns) desarmados e rendidos à força da carga policial. Este factos são reais e são estes factos que “Carandiru” relacta.

Tendo como base o livro Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, que conta a sua batalha contra a SIDA dentro da prisão de Carandiru, ficamos a conhecer as caras e as histórias por detrás de alguns dos rostos massacrados do tempo passado na prisão. São estas caras que nos chamam à terra e que nos dizem que estas pessoas cometeram erros, mas que muitos deles têm uma vida, tal como nós, que deve ser preservada e cuidada.

Esta parte inicial do filme onde somos confrontados com um conjunto disperso de histórias chama-nos à realidade de uma prisão (ou aquilo que imaginamos dela) para que a nossa consciência esteja aberta e atenta aos momentos que se seguem. É a droga, a SIDA, a loucura da clausura, a doença, a falta de condições, todas estas partes da socieadade que viramos as costas e olhamos para o lado, mas que parece que na prisão se aglomeram, juntam-se e misturando-se. Quando todos sabem que esta mistura dá explosão, mais cedo, ou mais tarde.

Foi o que aconteceu em Carandiru, nesse 2 de outubro, todas aquelas pessoas explodiram, fartas daquela realidade e da ignorância de uma sociedade que lhes continuava a virar as costas. “Talvez assim” pensaram muitos deles, parece que tinham razão. O motim e a carga policial fica registada neste filme com um conjunto de imagem que roçam a interpretação filosófica das mesmas. O realizador não “mostra” apenas, discute com o espectador, dá-lhe a entender que há algo mais, talvez mesmo numa realidade perto dele. Diz-lhe “Está atento!”, pois a luta desigual aparece em todos os cantos, em todos os niveis da sociedade, em todos os quadrantes …

Tal como na nossa sociedade, em Carandiru tudo passou, tudo se lavou e esqueceu. Talvez assim as pessoas não notem as manchas que ficaram no chão, “Esfreguem com muita força que a mancha sai.” o problema e que muitas vezes a mancha não quer sair, ou então aparece uma mancha nova que nos faz lembrar as manchas antigas, até que temos de mandar fora, porque já está muito manchada.

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